sexta-feira, 22 de outubro de 2010

"Era uma vez um homem cheio de sonhos.
Sonhos de amores, viagens e posses da mais variadas possíveis.
Falava ao mundo seus desejos.
Despejava em tudo o que ouvia, aos quatro ventos em seus insights mirabolantes.
Todos o ouviam, mas nem sempre com atenção.
E ele falava, e em sua volúpia, não percebia se entendiam ou não.
Até que um dia, nestes momentos de divagação total, sua voz lhe faltou.
Articulava os maxilares e nada.
Percebeu também que as idéias lhe sumiam.
Estava ficando vazio. Até perceber que não percebia, já não conseguia mais.
Não sabia se louco estava, pois não conseguia pensar.
Tudo o que via e ouvia era abstrato, não tinha a compreensão.
No começo andava meio que a esmo. Fazendo tudo automaticamente.
Um vazio, um zumbi, um não sei.
Caminhava na praia e tudo via, mas nada entendia. Pois não tinha a compreensão.
E a sua idéia não voltara mais. Muito menos a voz.
Uma não vive sem a outra.
As trilhas e caminhos lhe eram estranhas.
Antes tão conhecidos, hoje um mistério total.
Entrou pela mata fechada, a tropeçar em galhos, pisar em espinhos sem nada sentir.
Os amimais selvagens ou não fugiam dele. Parece que percebiam a sua irracionalidade.
Mas ele nem se dava conta de nada.
Afugentou jacarés, pisou em cobras, sem sofrer avarias. Sem se incomodar.
Talvez se sentisse mais um. Nada para saber, pois não tinha sentimento.
Olhava as aves na arvores, como se fossem folhas.
Sua visão também lhe faltava, pois não conseguia mais pensar em formas.
Fragmentos foram a bola da vez.
Não tinha e nem sentia culpa. Pois fora um acontecimento não premeditado.
E mesmo que fosse não saberia. Porque não se lembrava de nada.
Até os fragmentos que em um primeiro momento existiam, estavam sumindo.
Dando forma a um vazio. A não forma.
Rastejava com o corpo, pois desaprendera de andar.
Esquecera os movimentos.
Um dia depois de muito rastejar, estava ele a luz do sol sobre uma pedra, parado, inerte.
Olhando o vazio de tudo.
E o sol descia e lentamente se punha atrás das montanhas.
Logo abaixo desta pedra, o mar batia calmamente num eterno vai e vem.
Aquela pequena e bela praia com suas pedras laterais, falava mais que tudo no mundo.
Os bandos de chaúas aos pares retornavam a seus ninhos e levavam comida aos seus filhotes.
Os peixes pulavam na água sob o reflexo da luz solar, fugindo de um possível predador ou simplesmente brincando.
Os botos mais ao fundo, subiam para respirar, com uma aparente alegria ao cercar os cardumes.
A luz no crepúsculo encarnado davam todas as possibilidades de cores do universo.
As gaivotas em seu lindo e majestoso vôo, faziam pequenas manchas escuras no céu.
E ele com o olhar parado e vazio, nem percebeu que estava agora sentado na pedra.
O vazio que ficou, o fazia inteiro.
Não via, não ouvia, mas estava dentro.
Sua postura agora, talvez por um condicionamento do passado, era de lótus.
As idéias não lhe afligiam mais.
E dentro de si um novo ser se manifestou.
Foi tomando forma, não nascendo porque sempre existiu.
Suas mascaras todas agora jazem no mato, nas pedras, no mar.
Olhava para si mesmo feliz e agradecido pelo presente recebido.
Era o primeiro sinal de seu renascimento.
O som que ouviu, era celestial. O Om universal.
O corpo que lhe pertencia, tremia suavemente,, no estase de sua alegre percepção.
O Sol, sua fonte energética se despedia. E a sua fonte energética se despedia agradecida.
O eu total se manifestara magnificamente.
A voz lhe voltara ao cantar um mantra.
Achara o que sempre procurou.
O Eu superior estava manifesto.
E DEUS mais próximo do que nunca.
Ao voltar desta linda viagem, percebeu que não estava mais só.
A lucidez e a clareza das idéias estavam presentes.
As coisas estavam mais puras e límpidas. Pois a visão se clareou.
O belo, cada vez mais belo.
Não desceu da pedra, sem antes reverenciar o DEUS contido em tudo.
Virou as costas e seguiu pelo caminho. Pois agora já o conseguia definir.
O seu eu superior o dirigia, pois era e é, o seu eu verdadeiro.
E o seu caminho, é um caminho que só ele sabe." (Por Caco)



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